Quem viveu a Maringá dos anos 90 e 2000 certamente tem guardada na memória aquela folheada rápida no O Diário do Norte do Paraná só para procurar o cantinho da página dois onde ele brilhava. Neste mês, completam-se 15 anos da partida de Marcos César Lukaszewigz, o eterno Lukas (1962 – 2011).
O sobrenome polonês com pinta de trava-língua virou “Lukas” por conselho de ninguém menos que Jaguar, o lendário editor do Pasquim. Quando o jovem desenhista nascido em Mandaguari mandou seus rabiscos para o mestre, ouviu a direta: era melhor resumir a assinatura ou ele ostentaria “o nome mais impronunciável do Paraná”. Deu certo. O traço rápido, o humor corrosivo e a ética afiada ganharam a cidade.
Quem não se lembra da sua galeria de tipos inesquecíveis?
Noca – quase o alter ego de Lukas. Um dos mais populares personagens da pequena galeria.
Vagauzinho: O anti-herói sacana e apaixonante que nasceu como uma sátira a um mascote político. Era a voz dos desabafos do próprio Lukas sobre o Brasil — e que acabou largando o cigarro a pedido do autor, em respeito à garotada.
Argemiro e Odenilson dos Santos: Retratos do paranaense típico, sempre acompanhados de fumo e com aquele toque surreal de humor nonsense.
Os Mendigos e o Vô: Figuras do cotidiano que ganhavam humanidade e ironia nas tiras.
Lukas não era fã de badalações. Reservado, dividia seu tempo fora das redações entre os videogames e as leituras de Bukowski e Jack Kerouac. Mas, no papel, o papo era outro: virou tema de redação de vestibular da UEM, lançou livros marcantes como “O que vier eu traço” e “Demos Graças”, e deixou os políticos locais em constante estado de alerta com suas charges certeiras.
O câncer no pescoço nos tirou o cartunista precocemente em agosto de 2011, aos 49 anos. Hoje é lembrado por uma legião de fãs e por uma slaa no Centro de Ação Cultural Márcia Costa.
Mas a verdade é que, mesmo 15 anos depois, o olhar ágil de Lukas continua vivo na identidade cultural e na história do jornalismo paranaense. A gente segue por aqui, dando graças por cada traço.
Eu adoro boteco. Eu tomo cerveja, tubaina, sodinha… Eu amo boteco e seus frequentadores. Eu pago cigarro, pinga e cerveja para alguns. Pipoca, paçoquinha, pra garotada. Sempre com dinheiro, ganho com meu trabalho.
Eu adoro os pedreiros, pintores, coletores de lixo, catadores de recicláveis, mulheres com suas criancinhas e suas carroças cheias de papelão, andarilhos. Eu cultuo essa gente. São meus.
Dos meus dias de fome, dos meus dias de luta e meses de choro, à cada noite, quando deitava no colchão com a barriga vazia. Tempos de sofrimento, tempo de mandar tudo à merda e desistir.
O pouquinho que tenho hoje eu reparto com esse pessoal aí.
Eles são os meus escolhidos. Meus mentores, meus mestres, meus iguais. E não tenho vergonha nenhuma de amá-los.
Lukas (1962 – 2011)
Em 2011, Kaltoé – outro grande cartunista de Maringá – fez essa homenagem. É o nosso Lukas sendo recepcionado por diversos personagens de outros cartunistas famosos.
Lukas em foto de Antonio Roberto de Paula
Sala de Exposições Lukas no Centro de Ação Social Marcia Costa


