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“Abra suas asas, solte suas feras.” Era o refrão dançante da novela “Dancin’ Days”, que embalou o horário nobre da TV Globo, em 1978. Na pele da protagonista, estava Sônia Braga, que antes de ser Júlia no horário nobre, ou a icônica Gabriela, de Jorge Amado, foi uma menina que percorreu as ruas de uma Maringá ainda em formação. Hoje, aos 75 anos, a filha da Cidade Canção ocupa um dos postos mais seletos do cinema mundial, como uma das vozes que decide quem leva a estatueta do Oscar para casa.
As raízes
Em 1950, Maringá recém havia completado 3 anos de fundação e ainda era um distrito administrativo subordinado à Prefeitura de Mandaguari. Foi nesse contexto que em uma quinta-feira, 8 de junho, nasceu Sônia Maria Campos Braga, filha de Hélio Fernando Ferraz Braga e Maria Braga Jaci Campos.
Sônia viveu em Maringá até os 8 anos de idade, quando a trágica perda do pai alterou o rumo da vida dela. A situação financeira da família mudou drasticamente, levando a mãe da atriz a se mudar com os sete filhos para o Estado de São Paulo, onde frequentou um colégio de freiras e, posteriormente, uma escola estadual, onde começou a despertar o interesse pelas artes.
Em 1954, registro da atriz, aos quatro anos de idade, em Maringá (PR) / Acervo pessoal
A trajetória artística dela floresceu em torno dos 18 anos. No final dos anos de 1960, ela estreou nos palcos do teatro na montagem brasileira do musical “Hair”. No entanto, foi na década de setenta, que Sônia Braga se tornou um fenômeno cultural absoluto, dando vida a personagens eternos no imaginário popular. A icônica Gabriela (1975), da obra original de Jorge Amado, papel que reprisaria no cinema anos depois e a inesquecível Júlia, em Dancin’ Days (1978)
Na telenovela Gabriela, de 1975, Sônia se transformava em paixão nacional/ Foto: Sebastião Barbosa
Após ter se consolidado como uma das principais atrizes da teledramaturgia brasileira, Braga trilhou rumo às telonas, estreando sucessos de bilheteria baseados na obra de Jorge Amado, como Dona Flor e Seus Dois Maridos de 1976.
A ousadia da maringaense em romper fronteiras a levou a Hollywood dos anos 80, onde alcançou prestígio internacional e a indicação inédita ao Globo de Ouro de Melhor atriz, por sua atuação em O Beijo da Mulher Aranha, onde interpretou três papéis distintos.
Nesse período Sônia fez história ao ser a primeira brasileira a apresentar uma categoria no Oscar, em 1987. Na ocasião, ela subiu ao palco ao lado do ator Michael Douglas para anunciar o vencedor da categoria de Melhor Curta-Metragem em Live Action.
Sônia foi pioneira ao se tornar membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável por eleger os ganhadores da premiação mais importante do cinema, o Oscar. Abrindo caminhos para outros grandes nomes como Fernanda Montenegro, Wagner Moura e a mais recente, Fernanda Torres.
A maringaense tem a responsabilidade de votar no Melhor Filme, como os demais membros da Academia, e também ajuda a decidir as categorias de atuação da premiação, como Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Atriz Coadjuvante.
Foto: Jean Pagliuso Photography Inc
Recentemente, Sônia reafirmou sua potência cinematográfica em parcerias com Kleber Mendonça Filho nos premiados Aquarius e Bacurau. Em 2020, a atriz foi eleita pelo The New York Times, como uma das 25 maiores personalidades da atuação no século XXI.
Por ter saído de Maringá ainda na infância, Sônia preservou poucas raízes com a cidade natal, e raramente comenta sobre a cidade. Para o produtor audiovisual, Eliton Oliveira, isto é fruto de uma formação pessoal e profissional em outros locais, entretanto, ele acredita que seja importante que os órgãos públicos de Maringá, cultivem o conhecimento da população sobre o vínculo da atriz com a Cidade Canção.
Como queremos que ela se lembre e reconheça que é maringaense se nós, maringaenses, nunca prestamos uma homenagem a essa atriz? Já passou da hora do poder público ter feito algo
Eliton Oliveira
Em entrevista ao Maringá Post, Tiago Valenciano, secretário de cultura de Maringá, comentou sobre a falta de conhecimento da população sobre a origem da atriz na cidade. “Historicamente, a gente não tem nenhum tipo de iniciativa até então relacionada a um reconhecimento, homenagem, algum memorial ou, pelo menos, eu desconheço que tenha ocorrido alguma exposição ou algo nesse sentido para valorizar a carreira dela.”, analisou.
Autorretrato produzido em 2020 / Divulgação em redes sociais
Tiago relembra a exitosa trajetória artística de Sônia, e vê a falta de destaque da atriz como um ponto de atenção para a própria secretária e outros órgãos do município. “Para gente pensar até que ponto uma artista de renome do tamanho que é a Sônia Braga, que é da cidade de Maringá, não tem tido nenhum tipo de reconhecimento um pouco mais significativo do ponto de vista local”
A Câmara de Vereadores de Maringá, que é tão acostumada a querer criar méritos ou querer passar esse tipo de homenagem para personalidades locais, nunca nem pensaram em dar um título de cidadania à Sônia Braga?
Tiago Valenciano, secretário de cultura de Maringá





