POLICIA

Estudante denuncia estupro e acusa Brennand de manter ‘segurança armado na porta’

A estudante de medicina de 30 anos que acusa o empresário Thiago Brennand de estupro contou que havia um segurança armado na porta do quarto para evitar que ela fugisse. O caso aconteceu em outubro do ano passado em um quarto de hotel de São Paulo para onde ela foi levada após passar mal quando jantava com ele em um restaurante.

Stefanie Cohen é uma das 15 mulheres que já apresentaram denúncias contra Brennand por agressões e crimes sexuais. Com dois mandados de prisão expedidos pela Justiça paulista, ele está nos Emirados Árabes Unidos e aguarda a tramitação de processo para sua extradição para o Brasil.

Nove vítimas já foram ouvidas pelo Ministério Público de São Paulo, na capital e em Porto Feliz, segundo o MP-SP. Stefanie já protocolou a denúncia e disse que “está na fila” para ser ouvida.

A jovem contou ao Estadão que conheceu Thiago Brennand em outubro de 2021, após ter vencido o concurso Miss São Paulo de las Américas, que lhe deu o direito de representar o Brasil no concurso Rainha Internacional dos Mares e do Turismo, este ano, em Costa Rica.

“Eu estava comemorando o título de miss e ele veio puxar assunto. Foi uma conversa normal e rápida, pois fui embora de lá, mas ele me encontrou pelo Instagram e a gente começou a conversar.”

No início, segundo ela, o empresário se mostrava educado e gentil. “Ele me ligava várias vezes por dia, mandava fotos com o filho para mostrar que era bom pai, falava sobre medicina, até termos técnicos, mostrando conhecimento e isso me chamou a atenção. Quando ele me convidou para jantar em São Paulo, eu falei que morava em Santana do Parnaíba e ele disse que me buscaria em casa, pois queria muito me ver. Até achei um cavalheirismo dele.”

No restaurante, ela conta que conversaram muito durante o jantar, mas no final ele pediu uma batida de caju. “Eu tomei e comecei a passar mal, fiquei desorientada, tonta e pedi para ir embora. Eu não posso afirmar que ele colocou alguma coisa na bebida, pois não fiz exame toxicológico, mas foi totalmente fora do normal. Como é possível uma pessoa passar mal, ficar desorientada, sem conseguir subir uma escada depois de tomar uma caipirinha, sendo que a gente tinha comido antes?”, indaga.

A jovem se lembra que começou a ficar tonta e pediu licença para ir ao banheiro, mas ele foi atrás. “Era como se ele soubesse que ia me acontecer alguma coisa. Aí, dizendo que cuidaria de mim, ele me levou embora. Eu só me lembro que eu estava passando mal e ele tentava amenizar, dizendo, ‘não, tá tudo bem, tá tudo bem’, e foi assim que, eu passando muito mal, ele me levou para o hotel. Um hotel que parece que já é conhecido das outras vítimas, parece que aquilo (levar mulheres para o hotel) era corriqueiro.”

Ela só lembra dos horrores que passou naquela noite. “Eu estava passando mal, e ele forçando a relação sempre de forma violenta. Não houve relação consensual em nenhum momento, pois estava totalmente fora de mim. Ele foi forçando a relação anal, e eu lembro implorar que não, porque era uma coisa que eu nunca tinha feito. E ele estava forçando aquilo sem preservativo, sem nada, e falando que eu era a namorada dele. Eu disse não várias vezes, reagi com mais força quando ele quis fazer aquilo que é algo ainda mais agressivo, mas ele não se importou.”

Stefanie conta que, quando acordou de manhã, ele não estava com ela, pois tinha ido dormir em outro quarto. “Eu pensei que era a hora de pedir socorro, pus um roupão e fui abrir a porta, quando vi o segurança armado. Então percebi que eu não estava em condições de simplesmente sair correndo. Eu fiquei ali, presa, esperando que ele chegasse. Ele só veio até mim muito tempo depois, falando: ‘arrume suas coisas que nós vamos para a Boa Vista (Condomínio Fazenda Boa Vista, em Porto Feliz, onde Brennand é dono de uma mansão).

Depois de perceber que não escaparia facilmente daquela situação, ela decidiu cooperar e agir com naturalidade. “Eu pensei, ele é um homem enorme e está com um segurança armado, o que eu vou fazer? Me senti em uma situação em que eu precisava sobreviver. Então, eu resolvi dizer que estava tudo bem e falei que eu ia tomar um banho, aí ele começou a falar do meu corpo.”

Foi quando Thiago Brennand começou a depreciar os atributos físicos dela. “Ele falou que achava que estava com a Miss São Paulo, mas eu estava mais parecendo a Miss Paraíba, que eu parecia ter o corpo de uma sedentária e que ele iria falar com o cirurgião plástico dele para ver se eu tinha conserto.”

A jovem ainda tentou explicar que, quando perdeu o pai, que faleceu de uma doença degenerativa, de forma muito abrupta, ela sofreu com o luto e engordou. O homem insistiu nas agressões, dizendo que não queria ter sua imagem atrelada a uma gorda.

Logo depois o filho de Brennand entrou no quarto e ele avisou que sairia com o garoto, momento em que ela pediu para ir para casa, alegando que precisava pegar roupas para ir à fazenda com ele.

“Entrei em um carro blindado com um segurança armado e fiquei com muito medo de que ele não me levasse para casa e sim para outro lugar. Fui o caminho todo olhando pela janela e rezando para que ele estivesse me levando para casa.”

Quando chegou em Santana de Parnaíba, a jovem conseguiu dispensar o segurança, dizendo que tinha coisas a fazer e iria mais tarde com seu próprio carro.

“Ele ficou incomodado, mas, de tanto insistir, foi embora. Só que avisou o Thiago e mais tarde ele me mandou o vídeo em que eu estava nua. Ele passava a mão em meu corpo e aparecia o meu rosto. Eu não consegui nem responder, porque aquele vídeo já disse tudo o que precisava ser dito, ou seja, era uma ameaça explícita.”

Stefanie contou o ocorrido à sua mãe. “Até porque entrei em casa e desabei. Eu estava com manchas roxas no braço. Minha mãe queria denunciar e eu falei: ‘Mãe, ele tem um vídeo com meu rosto’. Ele certamente sabia que, como miss, eu não poderia ter um vídeo de nudez na internet. E tinha a questão da faculdade de medicina. Você ter um vídeo íntimo vazado… Como ficaria minha carreira?”

No dia útil seguinte, a jovem foi a uma consulta com a ginecologista e obteve um laudo. “Eu estava machucada na vagina e no ânus, com uma fissura anal. Tive que passar pomada por 10 dias, pois doía muito e era uma ferida aberta.”

Vítima relata medo

Ela conta que as semanas seguintes foram de muito medo de que ele divulgasse o vídeo ou fosse atrás dela. “Eu passei a ter muito medo, muita vergonha, muito nojo daquela situação e não queria que ninguém soubesse. Fora minha mãe, muita gente da família só descobriu agora, depois que eu decidi expor a violência dele.”

A jovem estava concluindo o quarto ano de medicina e não conseguia estudar. Foi preciso que a médica entrasse em contato com a coordenação da faculdade para ela poder prestar as provas no fim do ano. Ela entrou em depressão e passou a fazer tratamento psiquiátrico.

“Quando eu vi o caso da Helena Gomes (a modelo agredida por Brennand na academia), eu passei mal, pois abriu a ferida. Ele ainda teve a coragem de me mandar uma mensagem e pedir para depor em seu favor. Todo dia eu via uma nova atrocidade e eu ia ficando com mais medo. Falava, meu Deus, é a própria família que ele ameaça, e percebi que o Thiago não tinha limites, então meu pavor aumentava.”

Foi assistindo a um documentário sobre o caso João de Deus, o religioso acusado de crimes sexuais contra 300 vítimas, em Goiás, que ela decidiu procurar o advogado Márcio Janjacomo, que já acompanhava outras vítimas de Brennand, e fazer a denúncia. “Eu não queria ter os 15 minutos de fama assim, ainda mais com meu nome atrelado ao Thiago Brennand, mas estou tendo muito apoio. Fiz isso porque percebi que alguém precisava fazer para que mais vítimas criassem coragem. Outras mulheres já me ligaram, conversando, desabafando. Espero ser uma porta-voz dessas mulheres. Reviver a ferida não está sendo fácil, mas penso que é o certo a se fazer e espero ajudar outras pessoas.”

Empresário fala em inocência sobre outras acusações

A reportagem entrou em contato com o advogado Ricardo Sayeg, defensor de Thiago Brennand, e ainda aguarda retorno.